sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Marina Silva: uma mulher de muitas lutas

Candidata Marina Silva, estou ensaiando, há muito tempo, para um papo informal com a senhora, na tentativa de melhor esclarecimento sobre a sua candidatura. Sem dúvida alguma, a senhora aceitou um grande desafio, pois no Brasil não há muito espaço relevante, dedicado e ocupado por mulheres. O desafio se torna ainda maior quando as suas condições são também adversas às exigências da mídia, que cobra plástica e maquiagem, visando atingir um público que se nega a pensar, se alimenta de discursos pré- fabricados, como em máquinas de produção preparada pelo “marqueteiro” da ocasião.

Admiro a sua trajetória. Sua história pessoal em si, já é um desafio.

A minha história se assemelha à sua pois como a senhora, também tive formação escolar tardia, condições adversas para freqüentar escola e preparar-me intelectualmente. Tais fatos deixaram marcas indeléveis, não na formação do caráter e da personalidade, mas lacunas difíceis de serem superadas na consolidação da educação formal. A sua figura retrata fragilidade física em contraste com força interior, explicitando uma enorme vocação para o desafio. Penso que esta é a marca registrada de uma pessoa com a vontade de crescer imbatível, que nenhum empecilho faz calar.

Receba, cara Marina, toda a minha admiração e solidariedade, por tratar-se de figura ímpar num mundo tão artificial que, às vezes, nos obriga a nos tocar fisicamente para nos certificarmos de que somos reais. Assistimos inertes a construção de uma fantasia, por obra e graça de um mito político, e que como mito, não deixa espaço para a realidade.

Senhora candidata, me agrada a sua austeridade, elegância e autenticidade na defesa do meio ambiente e da ética mas gostaria de vê-la, também, empenhada na importantes bandeiras femininas. Talvez, as suas limitações religiosas não permitam mais ousadia, o que é uma pena.

Não tenho nenhuma restrição a posições religiosas divergentes, me preocupa o posicionamento milenar das igrejas no que concerne às questões de gênero, impedindo avanços sociais significativos, especialmente quando uma mulher assume estes discursos ultrapassados.

Não vi no seu discurso nada inovador quanto à luta das mulheres, não vislumbrei nada que me fizesse acreditar em mudanças significativas, que me empolgassem com a “onda verde”. E olha que a esperança é verde, não é mesmo?!

Avanços são essenciais senhora candidata, às mulheres não é permitido acovardar diante de tantos desafios que o mundo atual nos reserva.

Outro questionamento que não me dá trégua se refere aos avanços das pesquisas científicas e tecnológicas das células-tronco, entre outras, que tantos benefícios podem trazer à humanidade e que correm o risco de serem barrados, por impedimentos ideológicos e religiosos.

Defendo o direito de, pessoalmente, divergirmos nas posições religiosas e políticas, admito a diversidade a maior possível, mas tais posturas não devem interferir nas posições políticas do Estado.

Não posso fazer valer as minhas posições ideológicas pessoais como valores absolutos de uma sociedade, se assim ocorre o desastre é fatal. Ora nosso Estado é laico e pessoalmente penso que a religião, qualquer que seja, não é fator preponderante para formação de um ser humano melhor. A meu ver a religião deveria ser uma conduta individual, particular, íntima e de nenhuma forma poderia interferir nas posturas do Estado.

O titular do governo é pessoa pública, dentre da lei deve defender o melhor para o seu povo, independentemente da ideologia ou credo que professe (os Estados teocráticos sempre nos dão a dimensão do estrago que a mistura poder/religião trazem).

Quanto às questões de gênero, senhora candidata, também passam por essas crenças, nos condicionando a permanecer como seres de segunda linha, vítimas de predições religiosas, sem fundamentos, apenas para subtrair de nós os nossos direitos como seres humanos, em nome as nossas funções biológicas ou naturais. Na condição de mulher gostaria de sentir na candidata mais comprometimento e modernidade quanto à situação da mulher.

Seria necessário maior clareza, mais ousadia e, até o momento, não vi .Talvez por isso mesmo, a maioria das mulheres não se vêm representadas com a duas candidatas mulheres dessas eleições, uma com discurso incompleto e outra apenas uma fabricação machista de última hora.

O momento é singular, são duas mulheres candidatas ao mais alto cargo do país, não poderíamos perder essa oportunidade, conquistada a tão duras penas mas queremos mais, muito mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário