
Hoje o meu despertar foi diferente. Foi um despertar incômodo, de uma noite maldormida, como muitas noites incomodamente maldormidas. Maldormidas têm sido as noites dos últimos meses, ou últimos muitos anos. Sou de uma geração de inconformados, de uma época em que mulher não ia à faculdades, ou seja, sua profissão já estaria determinada: esposa e mãe.
Fiz faculdade, participei de lutas estudantis, morei fora do país, por problemas causados pela ditadura. Não requisitei ressarcimento em moeda, mas gostaria que esse pagamento se desse em dignidade, decência, honradez, vergonha, consciência política e consciência dos valores minimamente necessários para uma convivência em sociedade. Seria exigir demais?
Bom, vamos aos fatos. Vivemos em um país cooptado, onde quase todos os órgão e entidades representativas são compráveis e vendáveis, e quase todas o são, se acham representadas. Poucos são os que ousam manifestar contra qualquer iniquidade. Um partido político, representado por um presidente que, sem nenhuma oposição digna, decide o que é bom, justo, digno, decente para cada um dos pobres brasileiros, que perderam a capacidade de pensar e se indignar...
Não tenho a pretensão de ser dona absoluta de nenhuma verdade, mas tenho certeza de que não perdi a lucidez, e o que se assiste hoje, não pode ser o resultado de várias lutas: pela igualdade de oportunidades, pela diversidade cultural, pelo direito de oportunidades, pelo discernimento mínimo das pessoas, pelo direito à vida, subtraído pelo ganho fácil e o consumismo desenfreado, estimulado pelo próprio governo, como forma de fazer crescer o país, a qualquer custo.
Vidas são desperdiçadas, malformadas, para que não tenham mesmo nenhuma expectativa, senão a posse de um tênis de marca famosa, para que se sintam pertencentes a um grupo de privilegiados, que nem ousam questionar. Eu quero mais, muito mais.
A corrupção não pode ser percebida como algo natural, a subserviência não pode ser uma escolha natural, a cooptação não pode ser o caminho escolhido como forma de vida, nós temos que usar, por mais difícil que isso possa parecer a capacidade de pensar, refletir, sentir e podermos dar uma resposta à altura de um povo minimamente consciente da sua condição de humano. Ou calemos para sempre.
Excelente texto. Me recuso a me calar também.
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